Protocolos e Arquitetura · 6 min de leitura
O fabricante encerrou o suporte técnico a DeviceNet e ControlNet, e muitas plantas ficaram diante de um dilema: migrar tudo, com custo e complexidade altos, ou continuar operando no escuro. Existe uma terceira via. O fim do suporte oficial não é o fim da vida útil da rede, desde que ela passe a ser medida.
Por Darwin Anastacio Junior, fundador da Solaris Network Solutions · 27 de agosto de 2025
O dilema: migrar tudo ou operar no escuro
DeviceNet e ControlNet continuam sustentando linhas inteiras em muitas plantas. Os scanners, os módulos e os dispositivos de campo seguem funcionando. O que mudou foi o respaldo: sem suporte do fabricante, a equipe perde a referência a quem recorrer quando algo sai do normal.
A reação comum vai para um de dois extremos. Ou a planta decide migrar tudo de uma vez, o que exige projeto, parada, investimento e risco de startup. Ou decide não mexer em nada e torcer para que a rede continue estável. Nenhuma das duas é decisão de engenharia.
A alternativa é tratar a rede legada como um ativo a ser gerenciado. Medir o estado real de cada segmento, corrigir o que está degradado e planejar a migração com dados, na ordem e no ritmo que a operação suporta.
DeviceNet: o que medimos na camada física e elétrica
DeviceNet usa a camada física CAN, com transmissão diferencial em dois condutores (CAN_H e CAN_L), e distribui a alimentação de 24 V dos dispositivos pelo próprio cabo. Por isso, a saúde da rede depende tanto da qualidade do sinal quanto da qualidade da alimentação.
No estado recessivo, CAN_H e CAN_L ficam praticamente no mesmo nível e a diferença entre eles é próxima de zero. No estado dominante, as duas linhas se afastam e a tensão diferencial sobe. Quando esses níveis se deslocam, por queda de tensão ao longo do tronco, ruído ou problema de aterramento, os nós começam a interpretar bits de forma errada e surgem os error frames.
O Common Mode Voltage merece atenção especial. Ele reflete a queda de tensão nos condutores de alimentação ao longo do tronco: quanto mais longe da fonte e maior a corrente consumida, maior o deslocamento entre o referencial de um nó e o de outro. Um tronco que atendia bem na instalação original pode sair da faixa segura depois que novos dispositivos foram pendurados nele, sem que ninguém refaça a conta de alimentação.
A inspeção física completa o quadro elétrico: aterramento, curtos, miswires, condutores abertos e a montagem dos segmentos e das droplines. Onde há trechos em fibra, eles são verificados com OTDR (OptiFiber Pro) e com inspeção das faces dos conectores por sonda de vídeo.
- Taxa de erros e utilização de banda da rede.
- Bus power e Common Mode Voltage (CMV) ao longo do tronco.
- Shield voltage e níveis diferenciais de CAN_H e CAN_L, nos estados recessivo e dominante.
- Captura de tráfego, erros por dispositivo e forma de onda dos sinais com osciloscópio.
- Segmentos de fibra com OTDR e inspeção das faces das fibras por sonda de vídeo.
ControlNet: sinal por nó, NUT e capacidade da rede
ControlNet é uma rede determinística que trabalha com tempo de atualização fixo, o NUT (network update time). Dentro de cada NUT, a rede reserva uma banda agendada para o tráfego de I/O e de intertravamento e deixa uma banda não agendada para mensagens, programação e diagnóstico. O equilíbrio entre as duas define se a rede tem folga ou está no limite.
No meio físico, ControlNet usa cabo coaxial com conectores BNC e terminadores nas extremidades de cada segmento. Conectorização mal feita, derivações danificadas ou terminação incorreta aparecem como perda de nível de sinal e bordas lentas, e o nó passa a operar próximo do limite de recepção.
A análise de capacidade olha para o pior caso, e não para a condição média. O número de conexões ativas, a banda máxima usada e a folga da banda agendada dizem se a rede comporta mais um rack remoto ou mais um drive, ou se qualquer inclusão vai empurrar o NUT para o limite. Essa resposta é essencial numa rede que não terá mais evolução de produto.
Quando a análise mostra que a rede precisa de ajuste, seja por inclusão de nós, mudança de conexões ou correção de parâmetros, fazemos o reschedule da rede para que a banda agendada volte a refletir a configuração real.
- Captura e análise de sinal por nó, com mapeamento de distâncias e impedância.
- NUT, número máximo de nós, bandas agendada e não agendada e banda máxima usada.
- Disponibilidade, capacidade de expansão e número de conexões no pior caso.
- Saúde dos nós: LED check, poor signal, illegal framing, slow edges e menor nível de sinal da rede.
- Conectorização dos BNCs (1786-BNC), aterramento, instalação e comprimento de segmentos em cobre e fibra.
Por que medir antes de decidir a migração
Rede legada raramente falha de uma vez. Ela degrada: o nível de sinal cai aos poucos, a banda agendada fica sem folga depois de uma expansão, um aterramento se deteriora. Cada um desses processos aparece primeiro como falha intermitente, muito antes de virar parada definitiva.
Quando a planta mede, ela separa o que é defeito corrigível do que é limite real da tecnologia. Um conector BNC refeito, uma dropline reorganizada ou um ponto de aterramento corrigido podem devolver estabilidade a um segmento que parecia condenado. Já um segmento sem capacidade de expansão, ou com dispositivos sem reposição, entra na fila da migração.
Essa separação muda a conversa com a diretoria. Em vez de um pedido genérico para "trocar a rede", a engenharia apresenta um diagnóstico por segmento, com o que pode ser estabilizado e o que precisa ser substituído primeiro.
Sobrevida da base instalada com previsibilidade
O resultado de uma auditoria bem feita em DeviceNet e ControlNet é menos parada, mais estabilidade e mais previsibilidade. A rede deixa de ser uma caixa-preta que a equipe prefere não tocar e passa a ter estado conhecido, parâmetros medidos e pontos de atenção identificados.
Isso dá à planta o que o fim do suporte tirou: referência técnica. A base instalada ganha sobrevida enquanto a migração é planejada com dados, por fases, sem a pressão de uma falha grave forçando a decisão no pior momento.
Artigo desenvolvido a partir das publicações de Darwin Anastacio Junior no LinkedIn.

