Confiabilidade e Manutenção · 8 min de leitura
O valor de uma hora parada muda muito de um setor para outro. O que não muda é a forma como a parada é registrada: falha de ativo, componente trocado, ticket fechado. Em três setores com custos muito diferentes, o padrão que encontramos por trás desses tickets é o mesmo, e ele está na rede.
Por Darwin Anastacio Junior, fundador da Solaris Network Solutions · 24 de julho de 2026
Alimentos e bebidas: US$ 260 mil por hora
Em alimentos e bebidas tier 1, a hora parada custa em média US$ 260 mil (Aberdeen e ARC, 2026). É uma média: há operações bem acima disso. Para comparação, uma refinaria fica na casa de US$ 500 mil por hora, e a produção de biológicos passa de US$ 1 milhão.
Nas auditorias que fizemos em F&B na América Latina, 8 de cada 10 paradas classificadas como falha de ativo mostravam um de três padrões de rede. Nenhum deles aparecia no ticket de manutenção:
- Segmentação IT/OT que existe no papel, mas é contornada por um acesso remoto de fornecedor que nunca foi revogado
- Anel PROFINET ou EtherNet/IP operando em modo degradado há meses, com reconfigurações disparadas por CRC acumulado e sem baseline para comparar
- Firmware de switch com bug conhecido de multicast IGMP ou de convergência RSTP, que se manifesta como broadcast storm ou reconvergência no pior momento
Siderurgia e mineração: cerca de US$ 500 mil por hora
Em siderurgia e mineração pesada, a hora parada fica em torno de US$ 500 mil (Aberdeen e Deloitte, 2026). A complexidade da rede também é maior, porque convivem na mesma planta protocolos com ciclos e exigências muito diferentes.
Os padrões aqui têm outra forma. O primeiro é a sobreposição de protocolos na mesma infraestrutura física: Profibus DP na instrumentação, EtherNet/IP ou PROFINET acima e IEC 61850 GOOSE na subestação, sem que ninguém tenha feito baseline das três camadas. O segundo são anéis com MRP ou com PRP/HSR, este obrigatório em IEC 61850, reconfigurando por eventos que não geram alarme; o operador vê um “trip de proteção” e a equipe troca o relé. O terceiro é o cabeamento de campo, como Profibus PA, RS-485 e instrumentação blindada, dividindo bandeja com conversores e motores e absorvendo EMI.
Um complexo siderúrgico reduziu em 40% as paradas em três anos com uma mudança de método. Passou a auditar a rede de campo, a subestação e o SCADA como três sistemas distintos, cada um com seu baseline, e a reclassificar o ticket antes de fechá-lo.
Biológicos e vacinas: acima de US$ 1 milhão por hora
Na produção de biológicos e vacinas, a hora parada passa de US$ 1 milhão (Aberdeen e ISPE), e um único lote pode valer mais de US$ 20 milhões. Aqui a rede não só para a produção: ela compromete a rastreabilidade que o regulador exige.
O primeiro padrão está na interface OT/IT. Um gateway entre MES e registro eletrônico de lote (EBR) é qualificado em IQ/OQ na instalação e o firmware nunca mais é revisado. Retransmissões silenciosas geram discrepância de timestamp entre o dado de processo e o batch record, e isso só aparece na auditoria da FDA ou da ANVISA.
O segundo está na cadeia fria com jitter acumulado. O timestamp do alarme desvia, a câmara aquece 40 segundos antes de o operador saber, e a ocorrência é investigada como falha de sensor. O terceiro é o firmware de switch congelado em validated state por cinco a sete anos, porque revalidar custa cerca de US$ 200 mil. O bug de IGMP fica latente até entrar uma nova linha de vials; o anel colapsa e o lote é perdido.
O que os três setores têm em comum
Nos três setores, o CMMS conta a mesma história, seja SAP PM, Maximo ou Engeman. A parada é registrada como falha de ativo ou de instrumento, o componente é trocado e o ticket é fechado. Entre três e doze meses depois, a parada volta, em outro ponto da planta, com outro componente na mira.
O motivo é estrutural. O sistema de manutenção foi desenhado para ativos físicos com número de série: motor, bomba, sensor, relé. A rede entre eles não aparece como ativo, e por isso não aparece como causa. Quando a causa real está no enlace, o registro aponta o equipamento que parou, e a análise de confiabilidade passa a ser construída sobre uma classificação errada.
Isso tem uma consequência que vai além da manutenção. Qualquer modelo preditivo treinado com esse histórico aprende que o problema está nos ativos. Ele vai prever falhas de relé e de sensor com bastante confiança, e continuar ignorando a causa.
A receita: baseline, auditoria recorrente e reclassificação
A resposta não depende do setor. São três disciplinas, e o resultado vem da combinação delas: baseline sem auditoria envelhece, auditoria sem reclassificação não muda o histórico, e reclassificação sem baseline vira opinião. Na prática, isso significa:
- Baseline documentado de cada camada de rede, medido em produção, para saber o que é normal
- Auditoria operacional recorrente, e não apenas certificação na entrega da obra
- Disciplina de reclassificar falha de ativo e falha de rede antes de fechar o ticket no CMMS
O que muda para a gestão
Para quem responde pelo resultado da planta, a mudança mais barata é também a mais difícil: mudar a pergunta que se faz antes de fechar o ticket. “Qual componente falhou?” leva à troca. “Por que ele falhou agora, e o que mais estava acontecendo naquele enlace?” leva à causa.
A segunda mudança é tratar a rede como ativo no próprio CMMS, com identificação, histórico e plano de inspeção, como já se faz com motor e bomba. Enquanto ela não existir no sistema, não vai existir na análise de causa raiz.
Sem as três disciplinas, o investimento em IA preditiva vira slide de trimestre. É uma apresentação bem feita sobre um histórico que confunde falha de ativo com falha de rede, e que vai prever com precisão a falha errada.
Artigo desenvolvido a partir das publicações de Darwin Anastacio Junior no LinkedIn.

