Protocolos e Arquitetura · 6 min de leitura
Milhares de segmentos DeviceNet e ControlNet ainda sustentam linhas de produção inteiras, hoje por baixo de backbones EtherNet/IP e PROFINET. Essas redes raramente falham de vez. Elas degradam, e a degradação aparece como downtime inexplicado muito antes de chegar ao log do scanner.
Por Darwin Anastacio Junior, fundador da Solaris Network Solutions · 26 de maio de 2026
O legado que ninguém vê
Esse é o tema do meu artigo "Legacy CIP Networks in the Ethernet Era", publicado na Industrial Ethernet Magazine na edição de maio/junho de 2026. O ponto de partida é uma constatação de campo: a atenção da engenharia migrou para Ethernet, mas uma parte relevante da produção continua dependendo de redes CIP de gerações anteriores.
DeviceNet e ControlNet usam o mesmo modelo de objetos e serviços do CIP que o EtherNet/IP. Por isso convivem bem com a arquitetura nova: o controlador conversa com o backbone Ethernet e, através de módulos de ponte, com os segmentos legados. Para quem olha o supervisório, é uma rede só. Para quem precisa diagnosticar uma parada, são camadas físicas e comportamentos completamente diferentes.
O resultado é um legado que ninguém vê. Ele não recebe o investimento dos projetos novos, não entra nos planos de monitoramento e só é lembrado quando para.
Degradar não é o mesmo que falhar
Redes CIP legadas raramente param de uma vez. O que acontece é uma degradação progressiva: contadores de erro subindo num segmento com cabo envelhecido, sinal perdendo qualidade num trecho de ControlNet, um nó DeviceNet entrando e saindo do barramento. O scanner absorve boa parte disso com retentativas, e a produção segue.
Até que não segue. A linha para por alguns segundos, um módulo perde comunicação, um drive desarma. A equipe reseta, a linha volta, e o evento é registrado como falha de equipamento. Quando a degradação finalmente chega ao log do scanner, ela já causou semanas ou meses de downtime inexplicado.
Os sinais estão lá para quem mede. Error frames que se acumulam no mesmo horário do dia, um nó que aparece e desaparece da live list, um segmento de ControlNet cujo sinal perdeu amplitude desde o comissionamento. Nada disso gera alarme por si só, e quase nada disso é verificado numa rotina de manutenção comum.
É por isso que a pergunta certa sobre o legado não é se ele está funcionando. É em que ritmo ele está degradando e o que está sendo feito para gerenciar esse ritmo.
Migração por fases, legado gerenciado
A migração dessas redes para Ethernet vai acontecer, mas vai ser por fases e pode durar uma década. Não há janela de parada, orçamento ou disponibilidade de engenharia para trocar tudo de uma vez numa planta em operação. Durante todo esse período, o legado continua sustentando produção.
Na prática, a planta passa anos com gerações diferentes de rede convivendo: segmentos DeviceNet e ControlNet originais, trechos já migrados para EtherNet/IP e um backbone novo ligando tudo. Cada uma exige instrumentação e critérios próprios de diagnóstico.
Isso muda a postura necessária. O legado precisa ser gerenciado, não tolerado. Tolerar é esperar a migração resolver o problema. Gerenciar é tratar a rede antiga com a mesma disciplina de qualquer ativo crítico, enquanto ela estiver em serviço.
As cinco disciplinas
No artigo, essa gestão está organizada em cinco disciplinas. Nenhuma delas depende de hardware novo, e todas podem começar com a rede em operação:
- Baseline formal com instrumentação calibrada, repetido a cada 6 ou 12 meses.
- Verificação física rigorosa, pelos parâmetros definidos na norma do protocolo.
- Estratégia de sobressalentes documentada, com inventário de hardware e arquivos EDS e GSD atualizados.
- Controle de mudança executado: toda alteração em produção registrada e validada antes do hot-swap.
- Migração por segmento, não big-bang.
O que cada disciplina resolve
O baseline repetido transforma a degradação em curva. Em DeviceNet, isso significa error counters CAN observados em janelas longas sob carga, utilização em pico, verificação de duplicate MAC ID e comparação da scan list com a lista de projeto. Em ControlNet, qualidade do sinal Manchester por segmento, NUT timing e redundância de Keeper. Com duas medições comparáveis, a planta sabe quais segmentos estão piorando e em que velocidade.
A verificação física pelos parâmetros da norma evita que a rede antiga seja avaliada com critérios genéricos. A estratégia de sobressalentes com arquivos EDS e GSD atualizados reduz o tempo de reposição de um dispositivo que já não é fabricado. O controle de mudança ataca uma das causas mais comuns de instabilidade em DeviceNet: o hot-swap feito em produção, sem validação, que gera endereço duplicado e desestabiliza o scanner.
A migração por segmento, por fim, reduz o risco da própria transição. Cada trecho migrado é testado e documentado antes do próximo, e a planta nunca fica numa situação em que metade da rede antiga foi desmontada e a nova ainda não foi validada.
Ganho operacional, não tecnológico
O dado de campo é consistente: plantas que aplicam as cinco disciplinas reportam de 30% a 60% menos downtime não programado da rede legada já no primeiro ano, sem capex de hardware. Não houve troca de protocolo, de scanner ou de cabo em massa. Houve medição, documentação e controle.
Para a gestão, isso reposiciona o debate. A escolha não é entre migrar agora ou conviver com as paradas até a migração. Existe uma terceira via, mais barata e imediata: gerenciar o legado como ativo crítico enquanto a migração avança no ritmo que o negócio suporta.
Também melhora a própria migração. Uma planta que tem baseline, inventário e controle de mudança sabe exatamente o que existe em cada segmento, quais estão mais degradados e onde começar. O ganho é operacional, não tecnológico, e começa antes do primeiro cabo Ethernet novo.
Artigo desenvolvido a partir das publicações de Darwin Anastacio Junior no LinkedIn.

