Confiabilidade e Manutenção · 6 min de leitura
"Aqui a gente não tem problema de rede." A frase abre muitos kickoffs de auditoria, e é dita com toda a sinceridade. Ela quase sempre descreve a rede que está no papel. A rede que está no chão aparece quando ligamos o analisador.
Por Darwin Anastacio Junior, fundador da Solaris Network Solutions · 5 de agosto de 2026
A rede do papel e a rede do chão
Quem afirma que não há problema de rede está sendo honesto. Não existem chamados abertos contra a rede, a linha produz, as telas estão verdes. A conclusão faz sentido com a informação disponível. O problema é que a informação disponível é o diagrama e o histórico de chamados, e nenhum dos dois mede a rede.
Quando a auditoria começa, a primeira diferença aparece no inventário. Surgem equipamentos que ninguém sabia que estavam conectados. Aparecem IPs duplicados convivendo, porque um dos dois dispositivos raramente é acionado e o conflito nunca se manifesta. E o diagrama mostra dispositivos que foram removidos há anos e continuam desenhados, com endereço e tudo.
IP duplicado é um bom exemplo de como o problema se esconde. Enquanto um dos dispositivos está desligado ou quieto, o outro responde normalmente e tudo parece em ordem. No dia em que os dois tentam falar ao mesmo tempo, a comunicação de um deles falha de forma intermitente, e o chamado é aberto contra o equipamento que parou.
Nada disso é negligência. É o efeito acumulado de anos de manutenção, pequenas expansões e trocas feitas com a linha rodando, sem que alguém tivesse a tarefa de manter a documentação alinhada com o campo.
O que aparece na camada física
Na camada física, o achado típico são enlaces que passam tráfego mas operam fora de norma. Uma emenda de fibra com perda acima do budget óptico. Um par de cobre com NEXT no limite. Esses enlaces funcionam hoje, e é exatamente por isso que ninguém os procura.
Um enlace sem margem não cai de uma vez. Ele passa a descartar quadros quando a temperatura sobe, quando há interferência de um equipamento vizinho ou quando um conector oxida mais um pouco. Para quem está na operação, isso aparece como comportamento estranho de um equipamento, não como defeito de cabo.
Esses enlaces também consomem tempo de diagnóstico de forma desproporcional. Como o defeito é intermitente e depende de condições que mudam ao longo do dia, ele raramente está presente quando o técnico vai verificar. A falha é registrada, o equipamento é resetado e o ciclo recomeça na semana seguinte.
O que aparece na topologia
Na topologia, três achados se repetem. Cada um deles passa em qualquer teste funcional e só aparece quando alguém descobre a topologia real e lê a configuração de cada switch.
O anel que não é anel mantém a redundância apenas no desenho: se o switch comum falha, as duas pernas caem juntas. Dois gerenciadores de MRP no mesmo anel podem bloquear portas em pontos diferentes e partir o anel em dois. E a prioridade RSTP deixada no default faz a eleição da raiz depender do endereço MAC, o que pode colocar um switch de painel de campo no centro da árvore.
- Anel que não é anel: as duas pernas fecham no mesmo switch.
- MRP com dois gerenciadores configurados no mesmo anel.
- RSTP com prioridade default, elegendo como raiz um switch de campo.
Nenhum achado gerou chamado de rede
O dado mais revelador dessas auditorias não é técnico. Nenhum desses achados tinha gerado um chamado de rede. Todos tinham gerado chamados de equipamento: um drive que reinicia, uma IHM lenta, um CLP que perde comunicação com uma remota e volta sozinho.
É por isso que a planta acredita, com sinceridade, que não tem problema de rede. O histórico de manutenção registra o sintoma no ativo que parou, e o ativo é tratado. A causa, uma camada abaixo, continua lá, esperando a próxima ocorrência.
Quando a análise de falhas é feita sobre esse histórico, a rede simplesmente não aparece. Ela não está entre as causas porque nunca foi registrada como causa.
Em 20 anos de campo, vi esse padrão se repetir em setores muito diferentes. A troca de peças resolve o sintoma por um tempo, o indicador de manutenção melhora e a causa real continua ativa. Quando a mesma falha volta em outro ponto, ela é tratada como uma ocorrência nova, sem relação com a anterior.
Riscos normalizados
Em maio de 2026, publiquei na Processing Magazine o artigo "The OT Risks Process Plants Normalize Until Production Feels Them". O argumento central é que os riscos mais danosos não são os desconhecidos. São os que todo mundo vê todo dia e que deixaram de ser registrados como problema.
Os exemplos são familiares a qualquer um que trabalha em planta. A latência que "sempre esteve lá". O drive que "reinicia às segundas". O IP duplicado que "não importa porque está em outra VLAN". Cada um desses comentários é um risco que virou paisagem.
A normalização acontece porque a planta aprende a conviver. O operador sabe que precisa esperar a tela, o técnico sabe qual drive resetar na segunda-feira. O conhecimento existe, mas está na cabeça das pessoas e não em um registro que leve a uma correção.
O que muda para a gestão
Para a gestão, o primeiro passo é desconfiar da ausência de chamados de rede. Ela não prova que a rede está saudável; prova apenas que ninguém classifica falhas como falhas de rede. A pergunta útil é outra: quantos chamados de equipamento recorrentes nunca tiveram a rede verificada?
O segundo passo é medir. Um inventário real, a topologia descoberta no campo e a camada física certificada mostram em poucos dias a distância entre o papel e o chão. A partir daí, a frase do kickoff pode continuar sendo dita, mas agora com evidência.
Também ajuda criar um hábito simples na análise de falhas. Antes de fechar um chamado recorrente de equipamento, alguém verifica os contadores da porta e do segmento em que ele está conectado. Esse passo leva minutos e, com o tempo, começa a trazer a rede para dentro do histórico de causas.
Artigo desenvolvido a partir das publicações de Darwin Anastacio Junior no LinkedIn.

